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terça-feira, fevereiro 03, 2004
DOCUMENTÁRIO A menor das coisas

No debate do filme A menor das coisas de Nicolas Philibert, que acabou há pouco no IFP, Eurico de Figueiredo salientou que o filme deveria ter sido objecto da discussão enquanto filme e não apenas como testemunho de uma terapêutica psiquiátrica. Salientou, por isso que deveria ter estado presente um crítico de cinema. Na auséncia de um crítico procurei salientar um dos aspectos mais interessante deste documentário: o modo como este usa os olhares na construção da narrativa. Muitas vezes os olhares dos personagens estão perdidos em si mesmos, outras cruzam-se numa tarefa (como o ensaio de uma música) ou numa cumplicidade. Por vezes o olhar interroga-nos: num depoimento um dos residente da clinica psiquiátrica de La Borde diz-nos que se ali esta é por culpa de nós, apontando-nos, da sociedade em geral, diz. Não pude deixar de recordar aquele outro plano, do filme de Porter, logo no incio do cinema, em que um assaltante apontava a arma à assistencia, assustando na altura os cinéfilos. Aqui somos apenas interpelados. Aí o residente olha a câmara. Como em muitas outras ocasiões, aliás. Nicolas Philibert mostra essa relação entre o seu olhar (que filma) e olhar de quem é filmado. Numa delas um residente afirma claramente o seu contentamento por estar a ser filmado, o mesmo, mais à frente, vem, de bicicleta, pedalando até parar mesmo perto da câmara. Outro, ao ser chamado para se vestir, atras de um biombo, para a representação, sai de campo, mas diz…até já, afirmando essa consciência das filmagens. Uma outra, que antes fizera o desenho, num diálo sobre um cartaz que for a a sua criação afirma ser ela agora que está em pose. Um outro residente interpela Nicolas duvidadando que ele esteja a filmar, pois diz, não se houve barulho. Em suma, Nicolas Philibert mostra-nos duas consciências, dois olhares: o seu olhar e o olhar daqueles que filma. E, com esta técnica narrativa e outras, mostra-nos um olhar diferente, um olhar sobre o não visto, pois nenhum de nós vê como o outro. Dei como exemplo, na sessão, o olhar que abrimos sobre o Tejo, nos últimos anos, graças aos espaços reaproveitados do Parque das nações, do Jardim do Tabaco e das Docas. Mesmo a zona de Sta Apolónia, digo agora, como os cais, o Lux, a Bica do sapato. Olhares que se abriram, permitindo-nos desfrutar, com os outros algo que estava mais escondido, mesmo imperceptivel antes.
Sampaio Faria, o outro comentador, questionado por uma intervenção de Miguel Falcão, insistiu muito no facto de, actualmente, a tendência ser para rehabilitar não no interior dos hospitais ou das clinicas mas no seio da sociedade pois o isolamento artificializa (aspecto que também tinha sido referido por Eurico de Figueiredo no seu retrato da evolução histórica da psiquiatria). E por ultimo, José Medeiros Ferreira reflectiu também sobre o significado de uma frase, dita por um residente, quase no fim do filme. Este afirma que “se sente seguro pois estamos entre nós”….JMF interrogou-se sobre se isto não era afinal uma segregação, dando assim justificação a esta tendência de procurar tirar para for a das instituiçoes os que antes nela eram internados muitas vezes por toda a vida. Agora andamos todos na rua, tinha antes dito Eurico de Figueiredo. De menino e de louco, todos temos um pouco…
Enfim..imagens, sons e palavras que nos permitiram olhar-nos, olhar as nosssa perplexidades, as nossas interrogações. Olharmo-nos…
Como disse Nocolas Philibert "Um filme sobre a loucura? Certamente que não. Sobre a psiquiatria? Ainda menos! O teatro? Um pretexto... Mais que um filme sobre, eu fiz um filme com e graças a: com "loucos", e graças à [clínica psiquiátrica] La Borde. Se é preciso definir o assunto eu diria que é um filme que fala do que nos liga ao outro, da nossa capacidade - ou incapacidade - em dar-lhe um lugar. E, finalmente, do que o outro, na sua estranheza, nos pode revelar de nós próprios..."

É essa a aventura de viver, julgo.
 
José Carlos Abrantes | 1:32 da manhã |


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